set 10 2010
A Apple vai matar o Flash?
O futuro do Flash está cada vez mais nebuloso. Usado em 75% dos vídeos na internet, 70% dos jogos casuais online e em quase todos os 100 maiores sites da rede, segundo dados da própria Adobe, nada parecia conseguir abalar essa enorme supremacia. De uma hora para outra, no entanto, surgiram duas ameaças reais: a Apple, que fabrica alguns dos dispositivos portáteis mais usados no mundo, e o HTML 5, novo padrão da web que está sendo desenvolvido pelo World Wide Web Consortium (W3C).
Steve Jobs não esconde seu desprezo pelo Flash. Milhões de desenvolvedores ficaram surpresos quando o presidente da Apple disse que a plataforma da Adobe funciona adequadamente em desktops e notebooks, mas não em smartphones e tablets — e, por isso, não será adotada no iPhone e no iPad. Em uma polêmica carta divulgada em abril, ele listou suas críticas. Para Jobs, trata-se de uma solução ao mesmo tempo fechada e proprietária, que traz problemas de segurança, prejudica a performance dos aparelhos, consome muita bateria, não funciona direito com telas sensíveis ao toque e restringe inovações em aplicativos.
Havia expectativa sobre a adoção do Flash no iPad, no iPhone e no iPod Touch, dispositivos responsáveis por boa parte do acesso móvel à internet no planeta. A Apple, contudo, acabou de vez com qualquer esperança. Ao apontar os motivos da decisão, Jobs afirmou que o Flash tornou-se dispensável. A chegada do HTML 5 e sua combinação com CSS 3, SVG e JavaScript permite desenvolver muitas das coisas que apenas a plataforma da Adobe era capaz de fazer — e, para Jobs, sem vários dos problemas causados pelo Flash.
Tags no caminho
No HTML 5, os principais obstáculos da Adobe são as tags canvas, video e audio. A primeira permite criar animações a partir do código HTML. Com isso, ficará mais fácil desenvolver sites repletos de recursos gráficos, com a vantagem de que poderão carregar muito mais rapidamente. As tags video e audio permitem que os navegadores rodem vídeos online ou reproduzam músicas sem recorrer a plug-ins, o que também tornará o processo mais rápido e seguro. Só que sobram obstáculos para a adoção plena do HTML 5. O primeiro entrave é terminá-lo. “Não há uma data fechada, mas a nossa expectativa é 2012”, diz Vagner Diniz, que gerencia o escritório do W3C no Brasil.
Embora ainda leve tempo até o anúncio oficial, as tags video, audio e canvas já podem ser usadas. O problema é que, sem a batida de martelo do W3C, o HTML 5 ainda não é suportado plenamente por nenhum navegador. As versões em desenvolvimento do Chrome (6.0) e do Firefox (4.0), o Safari 5.0 e o Opera 10.60 têm o grau mais alto de compatibilidade com os novos padrões. Mas não atingem 100%. O browser mais usado, o Internet Explorer, é o lanterninha da turma e isso só deve mudar na versão 9.0. “O mercado não tem mais espaço para monopólio. A cada ano, os browsers vão se adequando a padrões mais abertos”, afirma Diniz.
Entre os navegadores, não há acordo sobre os codecs de vídeo e áudio que devem ser adotados. Os padrões abertos Ogg Theora/Ogg Vorbis e o WebM — que inclui os codecs VP8 e Ogg Vorbis e é apoiado por Google, Mozilla e Opera, entre outros — competem com os proprietários H.264/AAC, defendidos pela Apple. Enquanto não houver consenso, um site que queira adotar as tags terá de trazer vídeo e áudio codificados em cada formato existente. A Microsoft poderia pôr fim à disputa, mas recentemente deu a entender que o Internet Explorer 9 suportará tanto o VP8 como o H.264. Sem uma definição, a plataforma da Adobe ainda continuará por um tempo como o único padrão universal. Nesse período, será difícil abandonar o Flash.
Mas, ainda que essa transição demore, trata-se de um processo inevitável. “Em algum momento, todos os browsers devem convergir. Já vemos sites em HTML 5 que fazem coisas que o Flash não consegue”, diz Robson Silva, gerente de desenvolvimento da AgênciaClick. Seu time tem feito uma série de experiências com os novos padrões — criou até um jogo similar ao Guitar Hero. Os sites dos clientes da agência só não adotam as novidades porque não há garantia de compatibilidade com todos os navegadores. A migração para o HTML 5 também é dada como certa por Elcio Ferreira, fundador da Visie. A empresa, especializada em desenvolvimento web, lançou uma apostila sobre HTML 5 a pedido do W3C. Ferreira não acredita que o Flash morrerá. “As pessoas vão abrir o Flash, desenhar e depois publicar em HTML 5”, afirma
Mutação e sobrevivência
Para a Adobe, a onipresença do Flash na web desmonta qualquer teoria que o coloque sob ameaça do HTML 5. “É uma visão limitada”, diz Anup Murarka, diretor de Estratégia Tecnológica e Desenvolvimento de Parcerias da Plataforma Flash na Adobe. “Temos mais de 3 milhões de desenvolvedores no planeta. Não é uma comunidade que vai sumir do dia para a noite.” O executivo destacou que o Flash convive há mais de dez anos com o HTML. “Só porque uma nova especificação introduz capacidades similares não significa que vai substituir uma tecnologia tão bem adotada”, afirma.
Murarka atribui a enorme popularidade do Flash às inovações que a plataforma trouxe. “Quando a web era apenas formada por texto e imagens estáticas, adicionamos animações. Depois, acrescentamos vídeos. Isso vai continuar.” O suporte a gráficos 3D está entre as novidades a caminho. Em relação às críticas da Apple, Murarka disse que são os consumidores que decidirão o que é bom para dispositivos móveis. “Desenvolvemos uma grande experiência de navegação na web na plataforma Android. Vários dos nossos parceiros, como RIM, Nokia, Sony Ericsson e outros, estão criando aparelhos que suportam Flash. Os reviews têm sido muito positivos.” A Adobe espera que Jobs mude de ideia. Mais alguém acredita nisso?
Fonte: Revista Info

